Simulações

Category Archives: Ficção

Na hora de partir

Escolheu a corda na principal loja da cidade. Preparou o nó com cuidado. Organizou as coisas com carinho. Escreveu as últimas linhas com preocupação. Ouviu a música preferida pela última vez. Questionou a amada ao telefone. Juntou seus cacos pela casa. Chorou.

Banhou-se devido o calor infernal. Vestiu-se como se fosse a uma festa. Revisou o nó. Vagou pelas ruas próximas como se pedisse socorro. Foi ignorado. Sorriu.

Voltou ao seu canto. Revisou a organização dos documentos. Revisou a organização da casa. Beijou o bilhete que ficou sobre a mesa. Instalou sua forca. Trincou o vidro da mesa. Subiu na mesa. Olhou em volta. Já não possui nenhuma expressão em seu rosto. Pulou.

Toca o telefone. Toca a campainha. Forçam a porta. Ninguém responde. O cheiro ruim espalha-se. Arrombam a porta semanas depois. Os animais estão vivos. Falta tirar o pó.

Thales Barreto

Meu peito…

É em ti que eu penso toda hora.
É teu cheiro que quero encontrar na minha roupa.
É a tua língua que quero que encoste na minha.
É a tua mão que eu quero apertando a minha.
É a tua vida que quero guiando a minha.
É na tua vida que quero morrer.
É com o teu amor, com as tuas coisas que quero me acabar.
É por você que arrisco tudo.
É por ti que não durmo e é pensando em ti que desligo.
Não sei quando perdi a minha vida, mas sei que foi na tua que me encontrei.
É o teu sorriso que quero no rosto das minhas filhas.
É a tua pele que quero encostando na minha.
É com você que quero a minha vida.

Thales Barreto

Metade morta…

Uma metade morta de alguma coisa que não deixou rastros. Uma parte sem vida, sem sonhos, sem desejos. Um resto, uma migalha, um nada. Algo quebrado que deixou de funcionar. Um passado. Um sonho interrompido. Um lixo.

Alguém que mendigou carinho pra  uma parede. Que abraçou um gato para dormir aquecido. Que apertou um travesseiro esperando um resmungo. Uma metade sem vida. Uma metade em preto e branco, em cinza.

Metade esquecida em retalhos. Na gaveta. Na caixa. Na camisa rubro negra, alviverde, tricolor. A pétala caída da rosa… O amigo. Metade de um raciocínio válido. Pedaço de um delírio apaixonado. Um berro trancado. Um passado. Metade de um sentido.

Thales Barreto

Se eu morrer não chore não, é só a lua

Era a imagem do que não era. Sorriso da alegria que faltava. Da felicidade perdida nas mudanças que sua vida lhe pregou. Pronta pra esquecer o que estava vivendo. Ele também estava sorrindo. Seu coração sangrando e seus lábios entre abertos. Dentes a mostra. Sorriso que havia perdido com a solidão que tomava conta de seu tempo.

Prontos pra festa. Amigos, pessoas, novas canções. Lembranças de um amor que eles têm e queria não sentir mais. Você vai lembra, sim… Você vai lembrar de mim… Os olhos se fecham e por um instante os dois voltam no tempo. Voltam há pouco tempo, onde carinhos e palavras de amor eram trocados sem restrições. Hoje se luta contra o que se sente em nome de uma coisa que não se têm. Solidão amiga do peito… Dias em casa sem nada pra fazer. Sonhos guardados no fundo da mente. Falta carinho. Consolo para a perda temporária de esperança. Tudo acabou. Tudo se foi. Menos a vontade incontrolável de mudar as coisas. De sorrir verdadeiramente.

O futuro é um quarto escuro… E nossa mente é a luz dessa escuridão. A força de nossos sonhos nos leva pra frente. Motivada por desejos e por amores. Amores que temos. Amores que somos. Você não ligou quando eu disse para ter cuidado E tinha razão você precisa ser livre.. Liberdade subjetiva. Pra que tanta liberdade se seu coração está preso no passado? Se sua vida está no passado? Se seu coração não segue suas atitudes. E contrário a tudo sangra. Eu não entendo a sua volta Eu não entendo a sua indecisão Num dia sou o seu grande amor No outro dia não, não, não… Os olhos se fecham agora para dormirem. E nos sonhos viver o que o passado deu de bom e sorrir de verdade. Ao seu lado.

Thales Barreto

Publicado originalmente em 17/03/ 2003

Vermelho e amarelo

De um lado para outro caminha tropeçando em seus pensamentos. Já não conseguia se questionar apenas pensava naquele momento, a música tocando, todo com olhos voltados para o espetáculo e o beijo não saíra.

Travado, em estado de sonolência, em outro mundo não conseguia sentir o momento exato. Não que sua vida tivesse sido diferente caso o beijo acontecesse naquele instante demarcado pela música. Ele simplesmente não existiu. Não houve troca de olhares, não houve exitação, houve a vontade calada pelo som e pelo silêncio.

Atormentado repete a cena, repete a música, o passo imaginário da dança, tenta lembrar o perfume, o vestido, a roupa, a hora… tenta, em vão, sentir a textura da mão dela que não está mais ali. Tenta mudar a despedida. Tenta ser diferente do que fora, mas esquece que já passou.

O minuto passou. O espetáculo passou. Já em casa não descansa, pois o sufocamento do beijo não dado permanece. Perto da lareira esquenta o corpo vendo velhas fotos furtadas dela. Atira-se ao fogo como se procurando sentidos.

Thales Barreto