Faz dez anos que dois adolescentes entraram em uma escola americana e mataram 15 pessoas se suicidando logo após. As colegas Francesca Romani e Eliane Fronza, da Cyberfam, fizeram uma reportagem sobre o fato. Eu reproduzo ela agora: #
A pouco mais de um mês para o primeiro massacre em escolas completar 10 anos, na cidade de Winnendon, na Alemanha, um jovem abriu fogo em sua ex-escola, matando 15 pessoas e se suicidando em seguida. Em 20 de abril de 1999 no Condado de Jefferson, Colorado, Estados Unidos, os estudantes Eric Harris, de 18 anos, e Dylan Klebold, de 17 anos, concretizaram seu plano arquitetado durante dias: atiraram em vários colegas e professores do Instituto Columbine, escola que eles também frequentavam. #Leia mais aqui. #O lugar reconhecido pela sua tranquilidade e ausência de crimes foi destaque na imprensa mundial naquele que, aparentemente, seria mais um dia de primavera. Eric Harris e Dylan Klebold podiam ser adolescentes típicos aos olhos da sociedade. Mas levaram adiante um plano frio e calculista: compraram armas, uma pistola semi-automática e uma rifle de assalto de 9mm, e carregaram para o colégio 30 bombas caseiras. Invadiram salas de aula e biblioteca, matanto 12 alunos e um professor. Os dois tinham antecedentes criminais e Eric Harris, o princiapl articulador do ataque, tinha um site, agora desativado, no qual colecionava suásticas e slogans neonazistas e dava receitas para a confecção de bombas. #
O conservadorismo local, o clima pacato, o futebol americano, as aulas, as garotas, a música, os jogos de computador, qual o motivo que levou dois adolescentes a praticarem tal ato? Durante esses dez anos, outros agiram de forma semelhante. O que os motivou? Os dois jovens de Columbine deixaram uma nota junto ao corpo: “Não culpem mais ninguém por nossos atos. É assim que queremos partir”. #
Prática comum entre crianças e adolescentes, o Bullying pode ter sido um dos principais motivadores. O sentimento de “perdedor” e a exclusão por parte dos colegas alimentaram desejos de vingança. No próprio livro de formatura de um deles, fotos de colegas recebiam legendas de ‘morre’ ou ‘salva’. Para o psiquiatra forense Rogério Cardoso, “se esse jovem não pode falar em casa, lhe resta a escolha para falar. E se ele fala de uma forma estranha, é rechaçado pelos colegas. O impulso agressivo é inato no ser humano. Como a sociedade vai lidar com isso é que fará ser uma situação exitosa ou desastrosa”. #
Rogério Cardoso comenta também que a natureza humana é muito complexa: “Algumas pessoas pensam que matar é legal”. Explica, informando que o homicídio é a terceira causa de morte externa no mundo. E, para algumas pessoas, a morte pode parecer a única saída para alguns sofrimentos. Nesse contexto, é difícil definir o perfil de possíveis autores de atos criminosos desse porte: “Eu desconheço o perfil, geralmente são retraídos, não são populares. O uso de drogas é certamente um facilitador disso, mas não um fator determinante. Não se tem como caracterizar essas pessoas, por possuírem uma agressividade atípica.” #
Mas a sociedade e principalmente a mídia se perguntam e procuram um culpado para essas atitudes. No documentário ‘Blowing for Columbine’, do cineasta Michael Moore, o discurso bélico contemporâneo, principalmente de seu país, os Estados Unidos, é um dos alvos de ataque. Nele, Moore explora a facilidade de aquisição de armas por qualquer pessoa, já que nos EUA qualquer pessoa pode ter uma arma. Na época do ataque, a imprensa culpou o roqueiro Marlyn Manson por influenciar jovens a cometer tais atos. Manson se defendeu, explicando que era fácil colocar a culpa nele, acreditando que o que faltava a esses jovens era serem ouvidos. #
Na maioria desses casos, os jovens têm raciocínio de seus atos, não sendo considerados doentes mental. No momento que um plano de massacre é formulado, os autores desses atos tem total domínio sobre suas ações: “Um grupo maior é capaz de entender o que faz, um grupo menor é parcialmente capaz e um menor ainda pode ser considerado doente metal por não ter capacidade”, explica Cardoso. O médico explica também que “ o anti-social, aquele que possui uma frieza afetiva, é o que não se importa com a vida das pessoas, matando quem quiser atrapalhar seus planos”. #
Quando o filósofo francês René Descartes apresentou seu Discurso do Método, ficou claro, naquele período racionalista que “o entendimento era o que caracteriza o homem, pois os animais não participavam dessa condição”. Mas será mesmo que o homem superou o estado instintivo devido à sua capacidade cognitiva? A racionalidade pouparia o homem de ficar a mercê de seus instintos? Mesmo no estágio atual de civilização, o homem ainda é capaz de cometer barbáries por falta (ou excesso) dessa racionalidade. #
O Terra também aborda os 10 anos de columbine.
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